É natural que um developer, ao escrever sobre software, tenha tendência para entrar em detalhes demasiado técnicos, que apenas interessam a quem tem o mesmo nível de conhecimento ou a mesma profissão. A sua linguagem será, à partida, menos simples e intuitiva. Isto afasta de imediato os leitores que apenas procuram saber mais sobre o tema, ou informar-se sobre um produto.

 

Neste cenário, o developer é o portador do conhecimento, mas não necessariamente a melhor pessoa para o comunicar. Enquanto redatora de conteúdo, subscrevo totalmente a ideia de que não é necessário ser-se especialista numa área para poder escrever sobre ela. Pelo contrário: no meu caso, não ter informação suficiente é o que mantém viva a minha curiosidade, vontade de compreender e explicar melhor, tanto a mim mesma como aos outros.

 

Constato, então, que há algo de vantajoso na posição de quem está a aprender, de quem ainda desconhece e questiona, que permite produzir textos mais claros e eficazes, porque não assume que o leitor já tem conhecimento prévio. Estamos de igual para igual.

O processo de pesquisa, passo a passo

Antes de mais, e tal como sublinhado neste artigo, a produção de um bom conteúdo começa sempre por um briefing e comunicação claros entre cliente e redator. É aqui que procuro compreender os objetivos do conteúdo, o ângulo, tom, nível de profundidade pretendidos, entre outros detalhes.

 

Só depois vem a fase de pesquisa. É nela que me foco hoje. Para um tema que não domino, habitualmente divido a pesquisa em três níveis:

 

1. Visão geral

Foco-me em captar conceitos base e a linguagem associada ao tema. Passo por artigos introdutórios, posts de LinkedIn, podcasts ou vídeos explicativos.

 

2. Fontes especializadas

Procuro estudos, publicações científicas, organismos oficiais, relatórios de setor. Muitas vezes, o próprio cliente partilha recursos relevantes que se tornam, em si mesmos, fontes primordiais.

 

3. Validação

Cruzo informação entre fontes, identifico consensos e contradições, e tento perceber o que é facto estabelecido vs. opinião vs. dado desatualizado.

 

É sobretudo importante não apressar nenhuma destas fases. Preparar o terreno é tão importante quanto escrever. Só assim consigo criar uma estrutura mental clara da informação que pretendo transmitir e decidir qual a melhor forma de o fazer.

Como avalio a credibilidade de uma fonte?

A mesma informação pode ser encontrada em dezenas de sites. No entanto, há uma diferença significativa entre apresentá-la com base numa fonte “fácil”, com pouca autoridade na matéria, e investir um pouco mais de tempo na fase de pesquisa para encontrar uma fonte isenta e fiável.

 

No meu processo, avalio sempre quem escreveu a informação, quando foi publicada, se está referenciada noutras fontes credíveis e se existe algum conflito de interesses que possa enviesar o conteúdo. Isto porque, naturalmente, um estudo financiado pela indústria que é objeto de estudo não tem o mesmo peso que um estudo independente.

 

A regra básica que sigo é: se não consigo responder à pergunta “quem diz isto e porquê?”, desconsidero essa fonte.

O cliente também é fonte de informação

Sobretudo em setores mais especializados, muita informação potencialmente pertinente para o conteúdo final não está acessível publicamente. Refiro-me a dados sobre o posicionamento da marca, o contexto interno da empresa, nuances do produto, entre outros.

 

Faz sempre parte do meu processo identificar o que preciso perguntar ao cliente vs. o que consigo descobrir sozinha. E muitas vezes é algo que o cliente partilha comigo que desbloqueia novas ideias e contribui para um artigo diferenciador.

 

Perguntar é a chave. O cliente nem sempre sabe que tem essa informação para dar, ou não a considera relevante à partida. Cabe ao redator saber pedi-la.

Quanto tempo demora tudo isto?

Claro que depende sempre do tipo de conteúdo, da profundidade pretendida para o mesmo, do tema e da complexidade inerente. Mas – não me canso de frisar – o processo de pesquisa e escrita não devem ser apressados. Fazê-lo acarreta um custo: é a diferença entre um artigo sobre – por exemplo – finanças assente em generalidades e informação facilmente acessível, e o mesmo artigo suportado por estatísticas, números de instituições financeiras, estudos de mercado.

 

Claro que é possível escrever esse artigo de forma mais célere. Claro que é possível fazê-lo em tempo recorde. Mas não é possível torná-lo “à prova de bala”, sustentá-lo e justificá-lo de forma a distinguir-se dos demais.

 

Por isso, a minha resposta à pergunta inicial é sempre a mesma: mediante o briefing, chegaremos a um prazo que funcione para ambas as partes.

Em suma…

Escrever sobre o desconhecido é, para mim, uma das partes mais estimulantes do trabalho. Há qualquer coisa de fascinante em começar do zero, com pouco ou nenhum conhecimento, e terminar com um texto que explica o tema de forma clara, rigorosa e, sobretudo, útil.

 

Esse ponto de partida em que não se presume o nível de conhecimento do leitor torna o processo mais cuidadoso. E textos escritos com cuidado leem-se de forma diferente.